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Alterações da linguagem I

A linguagem é um processo mental de manifestação do pensamento e de natureza essencialmente consciente, significativa e orientada para o contacto inter-pessoal.
Apesar do processo da linguagem ser essencialmente consciente, entretanto entende-se que o fluxo e a articulação desta provém de camadas mais profundas e não conscientes, tais como do subconsciente e inconsciente, segundo o esquema de Willian James.

No estudo da linguagem, deve distinguir-se a expressão verbal e a expressão gráfica e a psicopatologia interessa-se tanto pela linguagem oral quanto pela linguagem escrita. Ambas as expressões são um conjunto de sinais próprios de cada língua com os quais manifestamos nosso pensamento, e tanto a expressão verbal quanto a expressão gráfica devem constar de dois elementos fundamentais - a sintaxe e a palavra.
Alterações articulares, que não são monopólio da disartria, também podem dificultar a expressão oral dos afásicos, tanto surgindo espontâneamente como mediante a solicitação do exame. Essas alterações serão determinadas pelos testes de repetição de palavras e frases. Vistas pelo ângulo neurológico, as anomalias podem apresentar um aspecto paralítico, quando falta a articulação e há anasalamento.
A falta de articulação chama-se anartria e pode mostrar um aspecto distónico, com contracções excessivas, sincinésias ou, ainda, um aspecto apráxico.

Analisadas sob um ângulo fonético, as alterações articulares caracterizam-se também pela redução da formação e diferenciação dos fonemas, semelhantes às simplificações fonéticas da criança ("bibiloteca", "espetaco", fessado"...). Outros elementos de diferenciação entre afasia e disartria são as alterações evidenciadas no uso voluntário e automático da linguagem. As alterações articulares da disartria estão ausentes na formas automáticas do falar, como no canto, por exemplo.

A sintaxe tem por objecto estabelecer as relações entre as palavras e as frases, e corresponde à própria organização do pensamento. As representações e os conceitos devem ser expostos numa determinada ordem necessária para se formar o raciocínio lógico. Esse arranjo racional da linguagem é a sintaxe.

Em 1924, Pavlov considerava a palavra como uma espécie de estímulo condicionado, comparável aos demais estímulos, mas com um carácter próprio. Dizia que se nossas sensações e representações do mundo externo nos dão os primeiros sinais da realidade, as palavras constituem os segundos sinais, os sinais dos sinais, representam a abstracção da realidade e prestam-se a generalizações, formando o nosso modo de pensamento humano e superior.
Escutar a fala e falar são os modos mais comuns da comunicação humana. Uma perda auditiva obviamente causa graves problemas na comunicação auditivo-oral. Por isso a avaliação auditiva em bebés e crianças é de fundamental importância para a prevenção e tratamento de problemas auditivos.

A linguagem costuma reflectir o pensamento e pode ser tida como o elo final da cadeia de processos psíquicos que se iniciam com a percepção e terminam com a palavra falada ou escrita . Costuma ter-se por certo que não existem pensamentos que não sejam formulados por palavras, ao ponto de poder afirmar-se que todo o pensamento corresponde a alguma determinada expressão verbal. É por isso que não se estabelecem diferenciações entre as perturbações do pensamento e as alterações da linguagem.

Se existissem apenas alterações da linguagem, estas ficariam limitadas aos distúrbios da articulação da palavra e da sintaxe mas, na realidade, as perturbações da linguagem são muito mais complexas. Se a linguagem é um atributo humano dirigido à comunicação entre pessoas, começamos a considerar o conteúdo da linguagem. Sim, porque os esquizofrénicos podem expressar os maiores disparates delirantes, mantendo uma perfeita correcção da sintaxe. Ainda aqui não é demais relembrar que a separação entre os diferentes processos psíquicos é feita apenas para facilitar o ensino.

Analisando as alterações da linguagem oral de um ponto de vista estritamente prático, podem-se dividir essas alterações em dois grupos principais:
1) Alterações da linguagem devidas a causas predominantemente orgânicas:
Disartrias (dificuldades na articulação e pronúncia das palavras)
Dislalia (dificuldade no falar)
Dislexia (dificuldade em ler e compreender a escrita)
Afasias (perdas mais ou menos completas da voz)

2) Alterações da linguagem de natureza predominantemente funcionais:
Disfemias (gaguez)
Disfonias (enfraquecimento da voz, dificuldade de emitir sons)
Logorreia (profusão de frases sem sentido e/ou inúteis)
Bradilalia (lentidão anormal da fala)
Verbigeração (repetição estereotipada de palavras ou sentenças absurdas)
Mutismo (mudez)
Mussitação (movimento automático dos lábios do doente, como falando por entre dentes)
Ecolalia (repetir maquinalmente as palavras ouvidas)
Esquizofasia (as palavras são deturpadas do seu sentido habitual, tornando-o incompreensível os neologismos abundantes)
Neologismos (palavras novas)

Ballone GJ - Alterações da Linguagem in PsiqWeb (2005)

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