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AFASIAS

Afasia é uma lesão cerebral de extensão limitada, que quando no hemisfério esquerdo de uma pessoa dextra poderá fazê-la perder a capacidade de utilizar a linguagem como meio de comunicação e como meio de representação simbólica: o indivíduo não poderá exprimir-se oralmente ou por escrito de uma forma inteligível; ele não consegue decifrar as mensagens que recebe sob a forma de linguagem oral ou escrita.

Afasia pode ser entendida como uma perturbação da linguagem caracterizada pela perda parcial ou total da faculdade de exprimir os pensamentos por sinais e de compreender esses sinais. Alguns autores referem a afasia como a perda da memória dos sinais pelos quais se realiza a troca ideias. De qualquer forma, o facto dominante na afasia é a incompreensão da palavra falada e a impossibilidade, em grau variável, de ler ou de escrever.

A definição de afasia exclui as perturbações restritas à função da linguagem e que estão sob a dependência de uma desorganização global do funcionamento cerebral, tal como acontece na confusão mental. Ela exclui, também, as dificuldades de comunicação resultantes de uma alteração do aparelho sensorial (surdez, cegueira), ou do sistema motor, como ocorre na disartria ou na hemiplegia, os quais intervêm normalmente na percepção e/ou na expressão da linguística.
Assim sendo, para o diagnóstico da afasia é importante que ela aconteça sem que haja alguma patologia dos aparelhos sensoriais e sem que hajam paralisias capazes de impedir a elocução da palavra oral ou sua expressão escrita. A afasia diz sempre respeito à perda dos conhecimentos de linguagem adquiridos, o que normalmente é acompanhado de algum prejuízo das funções intelectuais. Seria, então, a perda da inteligência específica da linguagem, tanto para expressar o pensamento por meio da palavra oral ou gráfica, quanto para compreender a palavra oral ou escrita (na afasia motora pode estar preservada a capacidade de compreender).

O diagnóstico da afasia, como transtornos que altera a linguagem tanto na compreensão como na expressão do pensamento, exige 4 características:
1. É sempre produzida por lesões focais do córtex ou do centro oval.
2. É sempre compatível com a integridade das funções motoras, sensitivas e das percepções elementares, portanto, não é condicionada por alterações nessas áreas.
3. Geralmente está acompanhada, em grau variável, de elementos apráxicos ou cognitivos;
4. Está associada a transtornos mais ou menos profundos da actividade intelectual que podem ser concomitantes ou simples repercussões dessa alteração da linguagem.

Tanto a afasia quanto a disartria podem perturbar gravemente a expressão, porém, são dois os carácteres semiológicos que distinguem esses dois tipos de alteração da linguagem. Na disartria há sempre uma conservação perfeita da compreensão da linguagem oral e escrita e existe sempre a possibilidade do doente se expressar perfeitamente por escrito.
Dos diferentes tipos de afasia, destacam-se apenas quatro que são bem conhecidos do ponto de vista anatomoclínico: afasia motora, afasia sensorial, afasia de broca e afasia global.

Causas da afasia
Na ordem decrescente de importância, as causas da afasia são as seguintes:
a) Desordens vasculares
b) Traumatismos que atingem o hemisfério esquerdo;
c) Processos inflamatórios;
d) Escleroses disseminadas e encefaloses;
e) Abscessos e gomas;
f) Tumores;
g) Hematomas.
Podem observar-se afasias transitórias no curso da uremia, diabete, intoxicações, na epilepsia e na enxaqueca.

Redução da linguagem
A redução da linguagem, associada ou não às alterações articulares, é a característica de algumas afasias. Ela apresenta aspectos múltiplos, que algumas vezes se sucedem num mesmo doente. A inibição é a característica mais constante, mostrando raridade e brevidade na expressão espontânea; durante um exame, as respostas são curtas como se emitidas a contragosto, em resposta a solicitações repetidas.

Supressão da linguagem e estereotipiaUma total supressão da linguagem caracteriza a instalação de alguns tipos de afasia, mas ela não será jamais um fenómeno duradouro. Não ocorre o mesmo para as estereotipias, que são uma outra manifestação de redução extrema da linguagem. Na estereotipia toda expressão oral termina pela emissão de algum som repetitivo, tipo, por ex., "tan-tan", ou de alguma palavra mais ou menos deformada, de um segmento de frase que é sempre o mesmo, quaisquer que sejam as condições de incitação. Ao contrário da supressão da linguagem, a estereotipia pode ser duradoura ou até definitiva.

Estereotipia verbalAssim sendo, a estereotipia verbal, que consiste na repetição automática de uma palavra, sílaba ou som, que se intercala entre as frases sem nenhuma finalidade, como tal, teria as seguintes características: fixidez, duração, identidade, inutilidade e inadequação às circunstâncias. Segundo Dromard, em muitos casos, trata-se de palavras ou frases que em época anterior à enfermidade tinham significação precisa e que, posteriormente, tornaram-se automáticas e perderam o seu conteúdo ídeo-afectivo. Em alguns casos, porém, trata-se de palavras ou frases simbólicas que foram condensadas e cuja significação escapa à compreensão do examinador.
Em casos de esquizofrenia, o autismo, com a sua significação de perda do contacto vital com a realidade, serve para explicar certos tipos de estereotipias da linguagem oral e escrita: os doentes repetem sem cessar as palavras ou frases, em tom de voz monótono, em voz sussurrada ou aos gritos. Pode faltar por completo a conotação afectiva da palavra ou da frase, porém, se a mesma existe, manifesta-se de maneira muito superficial ou não mantém relação com o conteúdo. As estereotipias verbais são comuns nos esquizofrénicos e deficientes intelectuais.
Entretanto, certas estereotipias encontram a sua explicação em lesões cerebrais circunscritas, como na demência pré-senil de Pick, nas lesões subcorticais da encefalite epidémica, no parkinsonismo, doenças nas quais se verificam estereotipias verbais de origem orgânica.

Agramatismo
O agramatismo é uma evolução frequente da afasia e reflecte uma importante redução da linguagem. A utilização prevalente de substantivos, juntamente com o emprego sistemático de verbos no infinitivo e a supressão de pequenos instrumentos de linguagem (artigos, preposições...) determinam uma forma de expressão semelhante a uma linguagem primitiva (mim Tarzã, you Jane) ou de um estilo telegráfico, com uma linguagem económica, reduzida, concreta, pobre, sem flexibilidade e sem possibilidade de abstracção.

Parafasias e jargonoafasia
Outras alterações afásicas de expressão da linguagem oral são as parafasias e jargonoafasia, consideradas tipos de afasia onde não ocorre a inibição da fala. A linguagem espontânea é rica e volúvel, porém as palavras ou os fonemas não são apropriados. As parafasias verbais consistem na utilização de uma palavra por outra. A palavra proferida apresenta, algumas vezes, uma relação de ordem conceitual com a palavra substituída ("garfo" por "colher", "lápis" por "borracha") ou de ordem fonética ("pêra" por "cera", "marco" por "barco"), porém a sua utilização frequentemente parece ocorrer ao acaso.
As parafasias literais correspondem a uma deslocação da estrutura fonémica das palavras, com elisão, inversão de sílabas, substituições, uso de palavras deformadas, porém ainda identificáveis ("reutamismo" por reumatismo, "biciteta" por bicicleta) ou de neologismos totalmente sem significado (para um lápis, logamentase, tipão, pinhão de caça...).

Já o jargão (jargonoafasia) é uma linguagem constituída de parafasias verbais e literais, frequentemente associado a uma dificuldade sintáxica (dissintaxia) que, diferente do agramatismo, não é uma redução económica da linguagem, mas sim uma utilização defeituosa da organização gramatical: ex.: "o amigo onde passei as férias". Normalmente, o jargonafásico não toma consciência da desorganização da sua linguagem (anosognosia) mas, com o passar do tempo, pode surgir alguma atitude crítica que permite ao doente reconhecer os seus erros e tentar corrigi-los.

Ausência de Palavra
A ausência de uma palavra é uma perturbação comum na maior parte das afasias, constituindo o que se pode chamar de aspecto negativo da alteração de linguagem. Ela transparece por trás da redução e inibição das afasias associadas às dificuldades articulares. Nesses casos, a evocação da palavra difícil pode ser facilitada se o examinador esboçar, oralmente esta palavra ausente.
Por outro lado, a ausência da palavra é disfarçada pelas circunlocuções entremeadas de parafasias nos afásicos volúveis. Esse tipo pode constituir a essência da alteração da linguagem na afasia dita amnésica. Em tais casos, o esboço oral é ineficaz, porém a evocação está facilitada pelo contexto, notoriamente quando se fornece ao doente uma frase onde a palavra ausente vai encontrar naturalmente seu lugar.

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