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quarta-feira

Quando a criança tem um amigo imaginário

É comum os pais surpreenderem os seus filhos em solilóquio (fala de alguém consigo mesmo) e muitos chamam-no "amigo invisível" ou "imaginário" com o qual a criança passa o tempo a brincar e a conversar, contando-lhe todos os seus problemas.
Muitos pais acham que somente o filho único tem um "amigo invisível" ou "imaginário".
Muitas crianças, quando estão a brincar sozinhas, gostam de imaginar que têm um amigo invisível, e para isso falam com ele, riem e até chegam a ficar zangadas e ficarem dias "de mal".
Quando os pais verificam que o seu filho está a falar sozinho costumam ficar preocupados.
Mas, na primeira infância não há motivos para estas inquietações, pois as crianças destas idades precisam imaginar e criar o seu mundo de fantasia, que lhe dá felicidade e prazer em crescer.
Se perceberem que uma criança fala com alguém invisível ou com o coelhinho de pelúcia que ganhou na Páscoa, escutem a conversa, e aprendam a estimar essas personagens do "faz de conta" dos seus filhos.
Dos dois aos quatro anos de idade as crianças vivem uma das fases da vida que se apresenta cheia de encantos. Todos os dias nos surpreendem com novas conquistas, novas proezas. E é também a idade da entrada nas nossas casas dos amigos imaginários.
Muitos pais já devem ter sido confrontados com a obrigação de mudar de cadeira à mesa, porque naquele lugar vai sentar-se o amiguinho Tonico, um amiguinho virtual do filho também denominado "amigo invisível" ou "imaginário", e obrigam a que se coloque um jogo de refeição com prato, talheres e copo, porque o Tonico quer jantar. Outros pais depararam-se com uma criança que interage animadamente com um objecto como, por exemplo, o travesseiro que usaram quando eram bebés, ou mesmo uma fralda, um cobertor da sua vida de berço, ou qualquer outra coisa.

Os amigos imaginários podem surgir de dois modos: amigos invisíveis (que ninguém pode ver) e, objetos personificados (com os quais a criança interage como se fossem humanos). Um amigo imaginário pode ser qualquer coisa, e até não ser nada de concreto - simplesmente estar ali, para a criança.
Algumas crianças usam brinquedos que vão das bonecas aos cubos. Existem crianças que brincam com personagens que só existem na sua cabeça. O "faz de conta" permite à criança sentir-se como dona da situação, pois ela é que dá ordens ao amigo invisível, ser por uma vez o responsável, ou chefe: ela pode ensinar, falar, mandar nos seus amigos imaginários de uma maneira impensável, em relação aos seus amigos de carne e osso, ou aos membros da sua família. Apesar de alguns pais ficarem algumas vezes perplexos perante tal facto, isto pode ser um modo positivo e criativo que a criança arranjou para lidar com o seu mundo de sonho e fantasia, podendo estar sozinha ou não. Na maioria dos casos, trata-se de um recurso valioso para a criança e importante para o seu desenvolvimento, quando surge de modo natural, servindo como factor compensatório.
Um amigo imaginário tem muitas vantagens. É alguém que está sempre disponível para brincar, que gosta de todas as ideias da criança, que coopera e que nunca lhe tira os brinquedos. Por outro lado, estes amigos também são frequentemente usados para a criança se livrar de sentimentos negativos e lidar com eles, ou para atirar as culpas de algum erro para cima deles.

Mas porque é que as crianças arranjam este tipo de amigos?
As crianças começam a brincar de "era uma vez" ou "faz de conta" desde muito cedo, por volta dos dois anos. E fazem-no repetidamente, imitando frases e atitudes dos adultos. Inicia-se assim um ritual. De certa maneira, nesse novo contexto, no qual surge o amigo imaginário, a criança controla os acontecimentos, sentindo-se importante e especial, sensação esta que pode não encontrar na sua vida familiar, ou na escolar, ou social.
Este tipo de "amigo invisível", ou "imaginário" ajuda as crianças a lidarem com as ansiedades normais do seu crescimento. Pode ser uma grande ajuda, desde que não se ultrapassem certos limites.
Há vários factores que podem influenciar o aparecimento destes "amigos especiais". Eles podem aparecer quando a criança passa por momentos de stress ou de ansiedade, como por exemplo, quando um amigo muda de escola ou vai morar em outra cidade, e então a criança pode substituí-lo por um amigo imaginário.
No caso das saudades de um ser querido, poderá substituí-lo, durante algum tempo, por um amigo imaginário, que contribuirá para que a angústia da separação não seja tão brusca e traumática, deixando que o tempo faça o resto.

Muitos pais que têm filho único que fala com o "amigo invisível" ficam desesperados, pensando em arranjar um irmãozinho. Pois isso é um ledo engano, já que muitas crianças, quando nasce um irmão, pode fazer com que ele invente um "amigo" por não estar interessado no nascimento do bebé. Termina sendo um recurso compensatório.
Nestas situações de stress, ou de grandes mudanças, ou perdas importantes, como um divórcio, ida para casa ou escola novas, a perda de um ente querido, ou o nascimento de um irmão, a criança, por não encontrar suporte para enfrentar sozinha o problema, arranja um "amigo invisível", ou "imaginário". Também é de realçar que são as crianças mais sensíveis e inteligentes que desenvolvem este tipo de recurso.
Quando os pais "expulsam" a criança do quarto do casal sem o uso de tacto, pode ocorrer que a mesma, para compensar a perda da companhia, crie o "amigo invisível". Ocorre o mesmo quando a criança é levada para a escola e, quando volta pode começar o solilóquio dos acontecimentos que vivenciou na escola perguntando, ao "amigo invisível" se gostou da professora e dos coleguinhas.

Os comportamentos da criança, e do seu "amigo invisível" são pitorescos e não se trata, como muitos pensam, que ela é solitária.
Quantas vezes pais convidam coleguinhas da escola para fazerem companhia e, a criança manda os pais esperarem porque ele vai consultar o seu "amigo invisível" para ver se está de acordo.
Os "amigos invisíveis", ou "imaginários" também ajudam a criança a lidar com a solidão. O "amigo", ou um objecto de conforto, ajuda a criança a fazer face quando sente os medos infantis, que são as situações que mais angustiam a criança, como o escuro, a solidão, o abandono. Nessas situações, este amigo faz-lhe companhia, preenchendo um pouco o vazio que se instala na vida infantil, reduzindo a ansiedade. Assim, pode fazer com que não perca o controle, uma vez que vai conversando com o amigo e ouvindo a sua própria voz, a qual, entre outras coisas, o acalma. Estes amigos servem, ainda, para a descarga das emoções contidas, que as crianças não conseguem canalizar adequadamente.

Lembretes para os pais (ou outros cuidadores) de crianças com "amigos imaginários":
· Não devem dar muita importância a este acontecimento. Se ele persistir até à pré-adolescência então, nesse caso, é interessante consultar um profissional de saúde;
Devem saber que:
. Ter "amigos imaginários" é algo perfeitamente comum entre crianças de 3 aos 6 anos de idade;
· Esta é uma demonstração das capacidades da criança para explorar e expandir a sua imaginação e criatividade.
· Muitas vezes, estes amigos são usados para lidar com sentimentos como a raiva ou a inveja.
· As crianças podem usar estes amigos para praticarem o que é ser e ter um amigo.
· Uma das grandes vantagens destes amigos especiais é que, se os pais ouvirem as conversas das crianças com eles, poderão ser capazes de descobrir alguns dos medos das crianças e alguns conflitos.
· Uma vez que o amigo imaginário também é um confidente, a criança fala com ele dos seus medos, por exemplo, o receio de que alguém a maltrate, ou que não simpatize com ela, ou de algum tipo de inadaptação, ou perda que ninguém tenha notado e que era tão importante para a criança.
· A descoberta precoce deste, e de outro tipo de acontecimento, poderá ser determinante para proteger ou ajudar a criança.
· Quando a criança pratica o solilóquio e ficar mais exacerbada devem estar atentos e falar com a criança, acalmando-a.
· É bom temporariamente perguntarem às crianças se realmente acreditam que estes amigos existem.
· Quando uma criança defende vigorosamente a sua existência, no fundo, saberá que é uma brincadeira.
· Tudo tem de ter certos limites, mas não há dúvidas de que estes amigos são importantes para as crianças. E, perante elas, devemos tratá-los com respeito.
· Não vale a pena lutarem contra isto, pois que, não ajuda e pode fazer com que a criança se isole e se sinta diferente, o que não é benéfico.
· É bom tratar o tema com naturalidade e até tomar parte desse mundo da criança. Incluí-los na vida familiar, como se tratasse de um jogo. Sempre respeitando a faixa etária da criança, os pais não podem frustrá-la, chamando-a de tola, maluca, etc. Devem brincar acreditando que o "amigo imaginário" e mais um ser da família. É uma excelente maneira de chegar à criança e estreitar os laços entre pais e filhos.
· Quando a criança se sente mais segura e madura, algo que deve acontecer até aos 7 ou 8 anos, diz adeus a estes "amigos imaginários", momento em que guardará uma lembrança carinhosa dessa sua etapa etária.
· A ajuda de um psicólogo deve ocorrer quando a criança apenas quer estar sozinha com esse seu amigo imaginário, evitando o contacto com os outros, ficando limitada e criando conflitos, isto é, alterando o seu normal inter-relacionamento com o meio e com os outros, algo de que a criança precisa para o seu desenvolvimento.

Retirado de artigo do psicólogo e jornalista Roque Theophilo

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