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quinta-feira

O impacto da violência doméstica nas crianças

A necessidade que as crianças têm de viver num ambiente consistente e previsível é posta em acusa pela violência doméstica – comportamento abusivo de um parceiro sobre o outro com o objectivo de o controlar e dominar. As rotinas tendem a ser interrompidas, os sons e imagens podem ser perturbadores.
Crianças que convivem com a violência doméstica correm maior risco de vir a ter problemas emocionais e comportamentais acrescidos

Violência doméstica é um termo que traduz uma variedade de comportamentos utilizados por uma pessoa para controlar e dominar outra com quem tem, ou teve, uma relação íntima ou familiar. Significa o mesmo que maus-tratos e violência familiar.
Ocorre em todos os grupos etários, raciais, socioeconómicos, educacionais, profissionais e religiosos.
Agressor, refere-se a pessoas violentas para com os seus companheiros. É utilizado com o mesmo significado que ofensor, abusador e mal-tratante.
Vítima, refere-se a pessoas abusadas pelos seus companheiros íntimos. É usado com o mesmo significado que sobrevivente, maltratada, abusada. Muitas pessoas que trabalham na área da violência doméstica preferem o termo ‘sobrevivente’, uma vez que este reflecte a realidade de muitas pessoas abusadas que lidam e enfrentam os abusos com a sua força e capacidades pessoais.

Impacto da violência doméstica nas crianças
- Assistir, ouvir ou ter conhecimento de actos de violência praticados contra o pai ou a mãe constitui uma ameaça ao sentimento de estabilidade e segurança da criança que deve ser proporcionado pela família.
- As crianças nestas circunstâncias poderão sofrer de maiores problemas emocionais e comportamentais.
- Algumas crianças que sofrem destes problemas manifestam reacções traumáticas de stress (perturbações do sono, reacções intensificadas de pânico, preocupação constante sobre um possível perigo).
- As crianças que convivem com a violência doméstica estão expostas a um maior risco de sofrer danos físicos ou abusos na infância (físicos, emocionais).
- As crianças poderão manifestar uma forte ambivalência para com o progenitor violento: o afecto coexiste com o ressentimento e o desapontamento.
- As crianças poderão imitar e aprender as atitudes e os comportamentos moldados quando ocorrem maus--tratos por parte de um progenitor.
- A exposição à violência poderá dessensibilizar as crianças para o comportamento agressivo.
- Quando tal acontece, a agressão torna-se “normal” e tem menos probabilidade de causar preocupação nas crianças.
- O agressor poderá usar os filhos como uma táctica de controlo das vítimas.

Potenciais impactos em diferentes idades:
Crianças de colo e bebés que começam a engatinhar
- Barulhos e imagens visuais fortes associadas à violência podem ser perturbadoras.
- Os progenitores poderão não ser capazes de responder consistentemente às necessidades dos filhos, o que poderá afectar negativamente a ligação progenitor/filho.
- O medo e a instabilidade poderão inibir a exploração e as brincadeiras; a imitação nas brincadeiras poderá estar relacionada com um testemunho de agressão.
- Aprendem sobre agressão em interacções observadas.

Crianças em idade pré-escolar
- Aprendem formas pouco saudáveis de exprimir a raiva e a agressão, possivelmente confundidas por mensagens dissonantes (o que vejo versus o que me dizem).
- Poderão atribuir a violência a algo que tenham feito.
- Aprendem os papéis de género associados à violência e à vitimação.
- A instabilidade poderá inibir a independência; poderão ter comportamentos regressivos.

Crianças em idade escolar (6-11 anos)
- Maior consciência das próprias reacções à violência no lar e do seu impacto nos demais (preocupações relativas à segurança da mãe, queixa contra o pai).
- Possivelmente mais susceptíveis de adoptar racionalizações ouvidas como forma de justificar a violência (o álcool provoca a violência; a vítima mereceu a agressão).
- A capacidade para aprender poderá diminuir devido ao impacto da violência (distracção); poderão ignorar os conceitos positivos, seleccionando ou fixando apenas os conceitos negativos.
- Poderão aprender sobre os papéis de género associados à violência conjugal (homens = agressores / mulheres = vítimas).

Sinais de alerta nas crianças:
Crianças pequenas poderão manifestar algumas das seguintes dificuldades quando convivem com a violência doméstica. No entanto, crianças pequenas poderão manifestar estes problemas por muitas outras razões, o que não significa necessariamente que tenham sido expostas à violência doméstica.
- Mal-estar físico (dor de cabeça, dor de barriga);
- Ansiedade com a separação (além do que seria normal para a idade da criança);
- Dificuldade em dormir (medo de adormecer);
- Comportamento agressivo crescente e sentimentos de raiva (infligir maus tratos físicos a si própria ou aos outros);
- Preocupação constante sobre um possível perigo;
- Aparente perda de aptidões anteriormente adquiridas (uso da casa de banho, nomes das cores);
- Afastamento dos outros e das actividades;
- Falta de interesse ou incapacidade de exprimir sentimentos sobre qualquer coisa;
- Preocupação excessiva sobre a segurança dos entes queridos (necessidade de ver os irmãos durante o dia, perguntar constantemente pela mãe);
- Dificuldade em escolher ou concluir uma actividade ou tarefa;
- Alto nível de actividade, agitação física constante e/ou dificuldade em concentrar--se a níveis atípicos para a idade ou fase de desenvolvimento da criança;

Sugere-se que os pais procurem ajuda para os filhos junto de um médico ou uma instituição de apoio à família quando o comportamento da criança:
- For fisicamente prejudicial a ela própria ou aos demais (cortar a roupa com uma tesoura, deitar-se na rua, etc.);
- For tão intenso que interfira com a adaptação quotidiana da criança nas actividades;
- Não responder às estratégias básicas de orientação infantil;
- Persistir com o tempo (3 a 6 semanas).

Formas de apoiar uma criança que revelou uma situação de violência:
- Deixe que a criança conte a sua história. Falar com um adulto em quem confiam, normalmente ajuda as crianças a falarem sobre acontecimentos perturbadores e violentos que ocorram nas suas vidas.
- Tranquilize a criança. Se uma criança lhe confiar uma revelação sobre um incidente perturbador, tranquilize-a corroborando os seus sentimentos (“Parece-me que isto foi muito difícil para ti. E agora, como te sentes”). Consoante a situação, poderá também ser útil deixar transparecer à criança que você gostou de que ela lhe tivesse contado, assegurando-lhe que a violência não é culpa dela e que ninguém deveria ser magoado.
Uma criança mais velha poderá pedir-lhe que não conte nada a ninguém. Será importante que você a informe de que precisará de contar a algumas pessoas para garantir a segurança da criança.
- Não pressione a criança a falar. É importante ter em mente que o seu papel não é o de juntar provas ou investigar a situação, mas sim ouvir e entender os sentimentos que a criança está a partilhar consigo.
- Não critique ou fale negativamente sobre o agressor. As crianças têm, frequentemente, sentimentos confusos ou contraditórios para com o agressor. Poderão odiar os abusos mas gostar das histórias ou dos jogos que o progenitor abusivo às vezes lê ou joga com elas. As crianças podem sentir-se, simultaneamente, muito zangadas e leais para com o progenitor abusivo. Se você criticar o progenitor ofensivo, os sentimentos de lealdade e protecção que a criança nutre por aquele poderão levá-la a sentir que não pode falar acerca do abuso.

Em Portugal, os maus-tratos legalmente reconhecidos (e/ou riscos graves de) devem ser comunicados aos serviços competentes. A legislação exige também que a exposição à violência doméstica seja comunicada às Comissões de Protecção de Crianças e Jovens.

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