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Parentalidade e problemas de comportamento


O desenvolvimento humano tem lugar no contexto das teias de relações sociais, e o curso de vida de um indivíduo é moldado pelos cursos de vida dos outros. Uma das relações mais íntima e influenciativa é a que ocorre entre pai e filho. Têm sido feitas algumas pesquisas pela comunidade científica com base na transmissão de comportamentos entre gerações, fundamentando provérbios populares como «filho de peixe sabe nadar», «quem sai aos seus não degenera» ou «tal pai, tal filho».

Esta hipótese da continuidade sugere que a maioria das crianças agressivas numa geração tende a ter as crianças mais agressivas da geração seguinte, e a base para esta continuidade pode advir de várias fontes, desde a genética até à social ou à ambiental. Esta hipótese é extremamente difícil de testar pois os comportamentos agressivos tem de ser estabelecidos durante a infância e a adolescência das duas gerações.

Os resultados da maioria dos estudos efectuados indicam que as práticas parentais de jovens pais com os seus filhos podem ser previstas pelas que eles experimentaram enquanto filhos. Alguns autores afirmam que parte da explicação para os comportamentos dos pais pode assentar nas suas experiências como crianças.

Uma conclusão plausível que se pode tirar é a de que comportamentos de parentalidade e agressividade parecem ter influências recíprocas nos dois. Dentro das gerações, a agressividade nos jovens é muitas vezes seguida por uma parentalidade promotora de agressão, o que por sua vez parece contribuir para a agressividade nos seus filhos; assim, parentalidade e comportamento agressivo podem ser ligados através de 3 gerações.

Esta transmissão entre gerações é feita provavelmente através de aprendizagem social. Do ponto de vista da aprendizagem social, espera-se que as crianças adquiram uma abordagem aos métodos parentais através das muitas interacções com os seus próprios pais, o que conduz a uma ligação directa entre os modos de educar as crianças entre primeira geração e a segunda. Os processos que envolvam aprendizagem por observação e treino directo podem também ser responsáveis pelas associações entre parentalidade e agressividade na criança.

Um estudo (de um autor chamado Capaldi et al, 2003) mediu o conceito de práticas parentais através de:
- Análise das relações entre pais e filhos (a maneira como se relacionam descrita quer pelos próprios, quer pelos observadores);
- Disciplina (coerência ou inconsistência das práticas disciplinares);
- Monitorização efectuada pelos pais (supervisão das actividades e comportamentos dos filhos).

Este estudo concluiu que variações na raiva parental, hostilidade, envolvimento e suporte emocional, desempenham um papel chave no desenvolvimento de comportamentos nas relações sociais.

A transmissão intergeracional de estilos parentais é influenciada por factores como o género e os factores sócio-económicos. É específica no género, sendo mais evidente esta continuidade nos pais do que nas mães; o comportamento anti-social desempenha um papel mais importante no modelo para os pais e o estilo parental um papel mais poderoso no modelo para as mães. Problemas económicos também parecem afectar mais o modelo maternal, talvez porque são habitualmente as mães as primeiras prestadores de cuidados da criança e como tal a pobreza ou as dificuldades financeiras têm um impacto maior na sua relação com as crianças do que a relação dos pais, que não participam no envolvimento diário com as crianças.

Em resumo, a parentalidade na primeira geração afecta directamente a competência do indivíduo numa das ligações mais importantes, a ligação entre pai e filho, colocando a criança em risco para o desenvolvimento de comportamento anti-social devido a práticas parentais pobres. Contudo a transmissão de comportamentos anti-sociais que pode ser interrompida através de programas de intervenção que melhorem as práticas parentais. As vidas parecem realmente estar ligadas deste modo e os factores de risco, como o económico e a parentalidade estão claramente entre os elos que avançam o nosso conhecimento sobre a continuidade comportamental.

In Manual da Criança (Agosto, 2009)

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