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quarta-feira

As crianças e a mentira

Será que as crianças mentem? Será que seres tão inocentes e ingénuos têm a habilidade, o engenho e a premeditação suficientes para mentir? E qual a fronteira entre a mentira e a imaginação? Entre o faltar à verdade e o mentir? Entre omitir «certos factos» e contar a história «à sua maneira»?

Às vezes é muito difícil afirmar se uma pessoa está a mentir, porque mentir não é apenas dizer coisas que não são verdadeiras – pressupõe uma atitude deliberada, ostensiva, mais ou menos premeditada, e isso são intenções que só o próprio pode confirmar. Além disso, mesmo nas situações em que a verdade é falseada, poder-se-á perguntar porque é que isso acontece. Para defesa pessoal? Para evitar consequências desagradáveis? Porque se leu a realidade de maneira diferente? Porque se está convencido que os factos foram exactamente assim, mesmo quando não foram?

O filósofo francês Rousseau apelidava a criança de «bom selvagem». Será que isso corresponde à verdade ou apenas na segunda parte da classificação? A história do «rei vai nu» também se baseia no facto de as crianças nunca mentirem, pelo que aquela que denunciara o rei seguramente só poderia estar a falar a verdade. O dia-a-dia, no entanto, encarrega -se de desmentir (cá estou a utilizar palavras relacionadas com o tema, mesmo sem querer) esses conceitos – uma coisa é certa: as crianças por vezes mentem.

Outra coisa também é igualmente verdade: há que ter cuidado em interpretar essas «mentiras». E cá estamos nós a afirmar verdades que, se calhar, para outras pessoas não serão tão verdadeiras assim e a enredarmo-nos neste labirinto verbal... vêem como as coisas são?

E mais: qual o grau de ligação entre mentir, em criança, e a aquisição de valores éticos de honestidade e desonestidade? De rigor ou falta dele? De lealdade ou deslealdade? Será que quem mente uma vez, mentirá para sempre?

Mentir por não entender o que se pergunta
Não se tratará propriamente de uma mentira, apenas de um mal-entendido. «Lavaste os dentes? Sim!», «Não lavaste nada. Lavei. Estás a mentir!».
Não tinha lavado, mas tinha..., ou seja, nesse dia, a que se referia a pergunta dos pais, não tinha, mas tinha lavado na véspera e confundira as coisas. A pergunta correcta deveria ter sido: «Lavaste os dentes agora?». Os gestos rotineiros são tão habituais que não retemos grande memória deles: responda, leitor: o que almoçou há três dias? E ontem?
Por esse motivo, antes de a criança ganhar uma noção do tempo, por exemplo, há que lhe dizer as coisas em linguagem entendível. Não saberá o que são três dias, mas talvez entenda o que é fazer ó-ó três vezes.

Mentira que é fantasia
As crianças pequenas, de quatro, cinco anos, gostam de inventar histórias e fábulas. Faz parte do seu desenvolvimento e é, portanto, normal, assim como é normal gostarem de ouvir contar histórias (actividade fundamental e porventura demasiadamente esquecida pelos pais), quer as histórias tradicionais, quer as inventadas pelos adultos e, muitas vezes, o que lhes dá mais gozo é, depois de as conhecer bem, ouvir as histórias tradicionais com pormenores novos e distorcendo a «verdade» que conhecem. Como o Lobo Mau ser afinal um exemplo de bom cidadão, ou os Três Porquinhos viverem com os pais, o fato de o Capuchinho Vermelho ser verde, ou a Cabra Cabrês e a Formiga Rabiga terminarem as suas questiúnculas a beber um chá e a comer torradas.

Nas crianças desta idade, há frequentemente uma «zona cinzenta» entre a realidade e a fantasia e as coisas imaginadas acabam por ser tão reais na sua mente que são capazes de jurar a pés juntos que determinadas coisas se passaram, mesmo coisas tão hipoteticamente impossíveis como ter aparecido um leão no infantário, terem ido dar um passeio a pé ao Japão ou o Pai Natal descer pela chaminé. Embora se devam esclarecer as coisas e tentar fazer ver à criança que provavelmente não se passaram bem assim, não se deve, neste caso, fazer chacota ou rotular a criança abertamente de mentirosa, já que ela está mesmo convencida de que o que está a contar corresponde à verdade. Quando alguém mente para se proteger, há outro alguém que, se calhar, fica acusado de algo ou responsável por alguma acção (sendo inocente). É muito importante, para que a criança ou o jovem vejam que as suas acções também atingem outras pessoas.

Mentira estratégica
Outro tipo de mentira é a mentira para conseguir objectivos pessoais, ou seja, uma forma de estratégia, mais do que defesa – inventar factos para tornear obstáculos e dificuldades que os pais põem a certas actividades. Há que, também neste caso, fazer ver que, por muito que doa, não é mentindo, mas sim negociando que se conseguem as coisas, e que a vontade dos pais ou dos adultos responsáveis prevalece sempre no final.

Quando o mentir revela problemas emocionais
Algumas vezes, as crianças contam histórias incríveis, recheadas de pormenores exóticos, mas à primeira vista credíveis, um pouco para chamar a atenção dos adultos. Se este comportamento se torna constante e a verdade e a realidade passam para «enésimo» plano, o facto pode traduzir alguma carência afectiva. Noutras vezes, a mentira torna-se rotina, como se se tratasse de um jogo (agradável e divertido para a criança) e, embora não existam intenções malévolas, pode degenerar num mau hábito, até porque pode parecer «a solução mais fácil» para não ter de dar contas a ninguém. Esta situação, quando se prolonga, causa bastante sofrimento na família e convém ser veiculada ao médico-assistente, para eventual orientação para apoio psicológico.

Mentira defensiva
Uma criança deste grupo etário (quatro, cinco anos) já pode mentir para se defender ou para não assumir a responsabilidade do que fez, com medo das consequências. É um tipo de mentira muito vulgar, quase como se negando a verdade ela deixasse de existir. Os pais deverão aproveitar para duas mensagens principais: a primeira é que, como diz o ditado, «mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo», ou seja, é raro poder levar-se a mentira até às últimas consequências e enganar toda a gente. A segunda mensagem deverá ser que é mais correcto e eticamente certo ser honesto, verdadeiro e rigoroso, mesmo que isso acarrete efeitos secundários menos bons.

O que fazer (e não fazer)?
É indiscutível que os pais e os educadores em geral são os principais modelos para as crianças, embora os outros elementos-chave da sociedade (ídolos, personagens televisivos, heróis) também tenham o seu efeito na formação dos valores e da personalidade. Se estes adultos de referência mentem (como tantas vezes acontece, basta relembrar o conhecido «diz que eu não estou», quando o telefone toca) e se não se dão ao trabalho de esclarecer porque o fizeram (ou de pedir desculpa por o ter feito quando a mentira não tem uma explicação cabal e lógica e quando não foi de alguma forma justificada), a criança habituar-se-á a que, afinal, mentir «não é tão errado como isso».

Por outro lado, sempre que surge uma situação de mentira por parte da criança, e mesmo tomando em linha de conta as diversas razões que lhe estão na base e das quais mencionei algumas, os pais e educadores deverão ser rigorosos, mas compreensivos, e não deixar passar o caso sem debater os aspectos éticos da mentira, para além das consequências imediatas do facto.

Se se desenvolve um padrão de mentira repetida ou grave, o caso deverá ser veiculado ao médico-assistente que poderá pedir ajuda a profissionais da área da psicologia. Algumas crianças não têm definidos os conceitos de Bem e de Mal, em idades em que isso já deveria ser um dado adquirido e isso deverá causar preocupação.

A pouco e pouco, com o crescimento, a criança aprenderá a distinguir o real do imaginário. Obviamente que, se a «zona cinzenta» for muito vasta e a confusão entre os factos e a fantasia se tornar constante ou não se esbater com a idade, o caso deverá ser debatido com o médico-assistente, porque pode estar associado a problemas do foro psicológico e de fuga à realidade.

In Pais&Filhos

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