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Síndrome de Shprintzen/ Digeorge

Shprintzen e colaboradores descreveram em 1978 uma síndrome composta por fácies invulgar, insuficiência velo palatina e anomalias conotruncais também conhecida como síndrome velocardiofacial. Em alguns doentes também existe ausência do timo e das glândulas paratiroídes, descrita em 1968 por DiGeorge. A presença de uma pequena delecção (microdelecção) no cromossoma 22 (em 22q11.2) foi identificada inicialmente em casos de Síndrome de Shprintzen e de algumas cardiopatias congénitas, nomeadamente conotruncais. Esta situação foi designada CATCH 22, acrónimo de:
C   cardiopatia congénitas
A   alterações faciais
T   hipoplasia do Timo
C   fenda (Cleft) do palato
H   hipocalcémia
22  delecção 22q11

Incidência, etiologia e diagnóstico
A incidência que abrange as referidas situações é desconhecida, no entanto calcula-se que em doentes com fenda palatina e outras malformações associadas, esta seja cerca de 8%. Uma vez que 44-64% dos doentes com lábio leporino/fenda palatina têm outras anomalias associadas e que a sua incidência é de 1 em 1000 nados vivos, pode-se avaliar a incidência das síndromes de Shprintzen/DiGeorge/delecção 22 em 1 por 25000 nascimentos.

A alteração genética associada a esta anomalia é a delecção da região 22q11 do cromossoma 22. Esta delecção está presente respectivamente em 63%, 83% e 29% dos doentes com a síndrome de Shprintzen, anomalia de DiGeorge e cardiopatia isolada. Os genes responsáveis e seus mecanismos de acção estão actualmente em estudo. Algumas das anomalias presentes nestas situações também se verificam em outras patologias, pelo que é importante a sua exclusão.

Evolução
É importante diagnosticar precocemente e tratar adequadamente as possíveis complicações destas síndromes, particularmente as que resultam das malformações cardíacas e gastrointestinais.
A evolução natural da síndrome de Shprintzen é caracterizada por 3 fases: no lactente, uma fase possivelmente complicada pela cardiopatia congénita, disfagia e refluxo gastro-esofágico grave, apneias obstrutivas do sono e infecções respiratórias altas; na infância, problemas decorrentes da surdez, atraso da linguagem e crescimento e dificuldades na aprendizagem; e a fase de adolescente/adulto em que são frequentes os problemas escolares, de personalidade e do comportamento. Os problemas neurológicos podem estar relacionados com alterações neuro-anatómicas associadas ao desenvolvimento de cerebelo. Existe um risco aumentado de anomalias oculares, do tracto urinário e dos genitais, e a laxidez do tecido conjuntivo é responsável pela presença de hérnias inguinais em 30% destes doentes e escoliose em 13-15%. Estão descritas alterações anatómicas das artérias da região da cabeça e pescoço, pelo que os procedimentos cirúrgicos do foro ORL são acompanhados de riscos acrescidos.

Apesar da informação relativamente a adultos com estas patologias ser escassa, é de prever uma esperança média de vida normal nestes doentes, se sobreviverem às complicações mais precoces. O crescimento é lento inicialmente em 35% das crianças, há geralmente dificuldades de aprendizagem e são frequentes a presença de voz nasalada, dificuldades de articulação de palavras e atraso de linguagem. Alguns adultos têm alterações psiquiátricas.

Tratamento e prevenção das complicações
A imunodeficiência celular constatada na anomalia de DiGeorge, exige uma vigilância apertada quanto à presença das doenças do foro infeccioso, assim como a necessidade de poder proceder a alterações do calendário vacinal. Quando é suspeitada esta patologia, não devem ser administradas a estas crianças vacinas de organismos vivos. O risco de infecções respiratórias altas está aumentado, sendo particularmente importante o tratamento da otite média crónica pelas suas implicações na audição. A fenda do palato é mais um factor de risco, não só associado à otite mas igualmente importante nos problemas da linguagem. Devem-se realizar precocemente ecocardiografias, avaliações da audição e de eventuais apneias obstrutivas do sono.

A hipocalcémia, habitualmente presente no período neonatal, deve ser tratada e a sua presença alerta-nos também para este diagnóstico.
A função cognitiva varia do normal ao atraso mental moderado, necessitando de uma abordagem terapêutica caso a caso.

Na criança mais velha e adolescentes, as dificuldades na aprendizagem e problemas escolares devem ser abordados pelos diversos especialistas. O rastreio dos problemas da linguagem e audição deve manter-se. O aumento da laxidão articular pode ter implicações na sua actividade física e a ocorrência de escoliose e hérnias inguinais carecem de uma maior vigilância bem assim como o desenvolvimento pubertário no sexo masculino.

Aconselhamento genético
Os pais das crianças com delecção em 22q11 devem também ser estudados por citogenética molecular (FISH) para um correcto aconselhamento genético.
Indivíduos com síndrome de Shprintzen têm um risco de recorrência de 50% nos seus descendentes. Naqueles indivíduos não afectados (e sem a delecção do cromossoma 22q11), o risco é inferior a 1%. É importante referir que o tipo e os problemas dos descendentes afectados podem ser diferentes de caso para caso.
O apoio psicológico é importante visto estarem associadas alterações do comportamento que variam desde uma interacção social pobre à psicose ou fobias.


(Informação adaptada de Preventive management of children with congenital anomalies and syndromes, Wilson GN, Cooley WC)
In Centro Hospitalar de Coimbra, EPE

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